sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Liturgia Distrito Rio de Janeiro - Estudo 1

Aqui o primeiro estudo sobre a Liturgia.
No fim do post veja o link para arquivo .doc.

A Liturgia Comum do Distrito Rio de Janeiro

1º Estudo: A Liturgia do Culto Cristão Luterano *

Introdução:
A comissão, composta pelos pastores Leonerio Faller, coordenador, K. Hermann G. Auel, e Paulo S. Albrecht, encarregada de elaborar uma ordem litúrgica comum para o Distrito Rio de Janeiro da IELB, na base da Ordem do Culto Principal II do Hinário Luterano, elaborou e apresenta esta série de quatro estudos que acompanham a LITURGIA COMUM DO DISTRITO RIO DE JANEIRO, aprovada na reunião do Conselho Distrital de 02 de Agosto de 2009.
Estes estudos visam estimular os cristãos luteranos a fazerem um bom uso do tesouro que recebemos em nossa herança litúrgica, para o nosso próprio bem e para o bem das pessoas de nossos dias que estão se perdendo em cultos “pop” de religiosidade humana, os quais amplamente perderam Cristo como centro de sua fé e de seus cultos.

1. A Liturgia do Culto Cristão é um acontecimento dialogado
Dr. Martinho Lutero, na inauguração da capela do Castelo de Thorgau em Outubro de 1544 definiu a essência do culto cristão assim: “que nele nada mais aconteça além de que o nosso querido Senhor pessoalmente fale conosco através da sua santa Palavra (inclui os sacramentos: Batismos e Santa Ceia) e que por outro lado nós falemos com ele através da oração e dos hinos de louvor.”
Estas palavras de Lutero lembram que o culto cristão é, e sempre foi, um acontecimento dialogado: Deus age em nossa vida por meio da Palavra e dos sacramentos, e nós manifestamos a nossa resposta para Deus. Importante é que a iniciativa para o nosso culto parte de Deus. Ele realizou todo o necessário para a nossa salvação e com os meios da graça, Palavra e Sacramentos, o próprio Deus possibilita que os cristãos lhe rendam culto e lhe dediquem toda a sua vida.

2. A liturgia do Culto da Igreja Luterana tem história
Enquanto as verdades que Deus transmite, por meio da sua Palavra e dos sacramentos, não mudam, a forma como o povo de Deus responde ao agir de Deus está sujeita a constantes mudanças, que aqui não podem ser apresentadas em detalhes. Queremos falar da ordem litúrgica do Culto da Igreja Luterana que remonta à caminhada do povo de Deus na Antiga Aliança e que se desenvolveu durante dois mil anos na cristandade. Ela é reflexo e expressão da fé e vida cristãs com os seus altos e baixos, acolhendo e respondendo à revelação de Deus. Aquilo que cremos se reflete na maneira como oramos.

3. A Liturgia do Culto Luterano capacita para a vida cristã
Os termos “culto cristão” e “liturgia cristã” no sentido restrito se referem à reunião do povo cristão ou de pessoas cristãs, em nome de Jesus. (Mt 18.20; 1 Co 5.4; 11.17, 18, 20, 33, 34; 14.23, 26) Neste sentido o Novo Testamento usa também o termo “o partir do pão” (cf. At 2. 42; 20.7) indicando que no centro destas reuniões estava a celebração da Santa Ceia.
No sentido amplo estes termos abraçam também toda a fé e vida cristãs. (Rm12.1; Tg 1.27; Hb 13.16) De modo que a liturgia do culto cristão nos acolhe com as nossas experiências da vida diária, prepara-nos e nos envia de volta para a vida cristã. O culto na igreja de forma alguma substitui o nosso servir a Deus no dia a dia.
Provavelmente é esta visão do culto cristão que evita que a liturgia de nossos cultos se resuma a manifestações entusiastas e passageiras.

4. O culto divino da Nova Aliança
Para a Igreja de Jesus Cristo existe somente um culto de reconciliação pelos nossos pecados: A paixão e morte de Jesus Cristo na cruz. Por isso na Nova Aliança são abolidos, de uma vez por todas, os sacrifícios ou outros serviços religiosos para obter-se reconciliação ou méritos perante Deus. Deus quer que o fruto deste sacrifício de Cristo – o perdão dos pecados, a justificação, a paz com Deus – seja oferecido e distribuído, gratuitamente, pela pregação do Evangelho e pelo uso dos sacramentos. Assim três ações cúlticas são ordenadas para nos conferir a salvação:
a. A proclamação do Evangelho (incluindo a lei) que poderá acontecer de muitas maneiras.
b. O Batismo com água em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.
c. A celebração da Santa Ceia de acordo com a instituição do Senhor Jesus Cristo.
A proclamação do Evangelho verdadeiro e o reto uso dos sacramentos são para a Igreja do Evangelho (da Nova Aliança) os meios da graça, pelos quais Deus dá o Espírito Santo, onde e quando lhe apraz, o qual por sua vez opera a fé salvadora nas pessoas e as capacita para a nova obediência (cf. Confissão de Augsburgo Art. V e VI, pg. 66 do Hinário Luterano).

5. A resposta da pessoa cristã
A pessoa cristã, que experimentou a salvação de Cristo pela fé, responde à proclamação da graça e do amor de Deus. (Mt 16.16; Jo 6.68,69) O testemunho da fé e o louvor fazem parte do culto. Também a oração, na qual o cristão agradece e louva a Deus por todos os seus benefícios e na qual implora para si e para outros a graça de Deus, faz parte do culto cristão regular da mesma forma como a pregação e os sacramentos. E para que a resposta da pessoa agradecida pela ação amorosa de Deus não seja somente uma confissão de lábios (Is 29.13 etc.) e para lembrar que o culto a Deus continua quando termina a liturgia na igreja, também haverá lugar na ordem litúrgica do culto para o ofertar de dinheiro e bens. Estas manifestações evidenciam também a comunhão real que Deus mesmo estabelece no culto cristão através do seu agir.

6. As características essenciais do culto cristão
Podemos assim considerar quatro características indispensáveis do culto cristão regular: A proclamação da Palavra, o uso dos sacramentos, as manifestações de comunhão e as orações. Estas características já são praticadas na igreja primitiva de Jerusalém (At 2.42) e são também essenciais para a ordem litúrgica do culto dominical regular da Igreja Luterana.

7. As características variáveis (Adiáforos)
Em nossas ordens de culto (liturgias) devemos distinguir entre aquilo que foi ordenado ou proibido por Cristo e aquilo que podemos realizar de acordo com a liberdade cristã, levando em consideração a cultura, os costumes e as condições de cada igreja e época. O que está sujeito à liberdade cristã, a teologia luterana chama de “adiáforos” (coisas indiferentes), que são instituídas por causa da boa ordem, decoro, enriquecimento e contextualização do culto. Referem-se à sequencia das partes do culto, o tempo do culto, o espaço do culto e sua decoração, a forma das orações, cantos, música e instrumentos, pinturas, vestes, gestos como ajoelhar-se, fazer o sinal da cruz, levantar ou juntar as mãos etc.
Nesta matéria existem muitas possibilidades, já que a Bíblia não estabelece leis em relação a ela. Por isso, neste sentido não se pode estabelecer leis cuja observância seja necessária para a salvação. Estas variáveis do culto cristão também não são motivos para divisão na igreja de Cristo (cf. Confissão de Augsburgo Art.VII, 3 pg. 66 do Hinário Luterano) e deve-se levar em conta na sua aplicação “os fracos na fé” (cf. Rm 14) que eventualmente possam “escandalizar-se” com determinadas regulamentações.

8. O que visa o bem comum é acolhido com amor
Mas, também é uma característica da comunhão cristã de, em amor, submeter-se a uma forma estabelecida para o bem comum e que corresponda à verdadeira fé crista. O estabelecer de tais ordens e cerimônias, que são da alçada da comunidade / igreja / sínodo, deve ser de acordo com o evangelho. Precisa-se respeitar também o conselho apostólico em 1 Co 14.40, “que tudo seja feito com decência e ordem” . Tais ordens procurarão facilitar a participação do culto comunitário no seu contexto concreto, sem eliminar ou diminuir as características essenciais.
É aconselhável, até onde o evangelho o permita, que se proceda nestes assuntos de maneira comprometida com a tradição da igreja cristã, para evitar caminhos e atitudes não convenientes e para tornar visível por muitas gerações a unidade no uso dos meios da graça, na prática da fé e no orar. Isto serve também para facilitar a vivência da fé cristã e para conservar (individualmente e de forma coletiva) o conteúdo das verdades reveladas que não mudam.

Conclusão:
Temos a certeza de que o nosso culto luterano, realizado de maneira alegre, consciente e contextualizado, é uma das melhores marcas de qualidade da nossa igreja e da nossa confessionalidade luterana, sendo, portanto, um excelente testemunho da nossa fé.

K. Hermann G. Auel, pastor emérito.

* Para uso interno do DRJ da IELB.
Para a elaboração deste estudo foram usadas várias fontes da Literatura e Manuais sobre o Culto Luterano: Principais autores: David Karnopp, Friedrich Kalb, Gert Kelter, Oscar Lehenbauer, Ralph Bente.

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